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Crianças Em Letras Maiúsculas

V. não copiou a matéria da lousa, agressiva e irrequieta, passou a perambular pela sala ofendendo e agredindo os colegas. Primeiro chamei sua atenção, ela resistiu , percebi que não adiantaria insistir, apenas impedi que saísse da sala, ela continuou agressiva. 

Assim que completei a lousa, me aproximei e sondei. V. deixou de agredir os outros e passou a agredir a si própria com sarcasmo e morbidez. Calado, apenas me sentei a seu lado tentando compreender o que acontecia até que, sem explicar o motivo, ela chorou. 

V. tem apenas 12 anos veste roupas doadas que cheiram a fumaça e mora numa palafita miserável, ela tem todos os motivos pra ter raiva e todos os motivos pra chorar.

  B. é bem miudinha, corpinho magro, canelinha fina, tem o rosto redondinho com olhinhos ágeis e dentinhos serrilhados como de um ratinho. O cabelo sarara desgrenhado e as roupas encardidas denotam abandono. 

B. é calada e muito mal humorada, brinca pouco com os colegas, os poucos que tem, e está sempre isolada em seu cantinho, quase sempre por ter se envolvido em confusão, já brigou, bateu e apanhou da sala inteira. 

B. é muito brava, a tudo o que se pede, ela diz não e não, inútil insistir e tudo o que se oferece ela rejeita, não aceita de forma alguma, também não adianta insistir. Mas basta deixá-la em seu canto, ela vai e cumpre dissimuladamente o que foi solicitado ou basta deixar esquecido numa carteira próxima o que foi oferecido, sorrateira, ela guarda sorrindo de satisfação com seus dentinhos serrilhados. 

B. aparenta ser muito brava e mal humorada, apenas aparenta.

  D. é mirradinho, mas ágil, muito ágil. Corre inalcançável entre as carteiras sem tocá-las e quando esbaforido seu perseguidor desiste, ele abre um sorriso só seu. 

Quando D. sorri todos são contagiados por seu sorriso, menos pelo contraste entre a brancura esmaltada de seus dentes com escuro brilhante de sua pele, mais pela alegria sincera que irradia. 

D. adora um afago, quando faz a lição não aceita menos que um dez no caderno, mas nem todas as vezes ele cumpre as tarefas, quando cisma não fazer inútil insistir, não faz e pronto. Por outro lado, nas vezes que se curva na carteira e se põe a escrever, faz com capricho, letra desenhada, sem garranchos ou manchas de borracha, um esmero. E ao fim de seu trabalho, D. oferece junto com a tarefa concluída o seu sorriso contagiante, impossível resistir. 

Certa vez, barrado em sua corrida aos berros, D. estancou sem sorrir e sentiu no rosto o pinicar pegajoso das gotículas de saliva lançadas a cada grito dado pelo histérico professor. Naquela tarde calorenta em que o professor entrou na classe, as crianças o cercaram, queriam tomar água, ir ao banheiro, se refrescar um pouco, enfim fugir do ar morno e asfixiante da sala de aula. Autoritário, o professor começou a gritar e de seus olhos injetados saiam faíscas ameaçadoras: "todos estavam terminantemente proibidos de se levantar, e sair para tomar água nem pensar". 

Cheio de autoridade e satisfeito com o silêncio que se instalou, o professor deu inicio a chamada, quando chamou o número quatro, D. não respondeu, ao fundo alguém alertou: “ele foi tomar água”. 

N. doma seus cabelos rebeldes com um rabo de cavalo preso com duas rosinhas vermelhas. Um caminho de rato mal desenhado divide sua cabeça pequena e ovalada. 

N. nunca fala espontaneamente, apenas responde com monossílabos ou sorrisos envergonhados quando lhe perguntam algo. 

N. senta sempre na segunda carteira da fila do meio mesmo quando a primeira está vaga, ela é tímida. 

N. copia toda a matéria, faz lição de casa, guarda com cuidado  a mochila e os materiais que ganhou da escola. Sempre está vestida com roupinhas simples, mas limpas. Num dia que cheguei adiantado vi N. chegar à escola, ela vinha na garupa da bicicleta de seu pai. 

O pai de N. não tem rabo de cavalo, mas um caminho de rato divide sua cabeça ovalada. Na reunião, o pai de N. prestou atenção em tudo que foi dito, mas não falou nada. Apesar da primeira carteira ter ficado vaga, ele sentou na segunda, muito tímido ele. 

O pai de N. usava roupas simples e gastas, mas estavam bem limpinhas. 

Noutro dia ouvi um aluno perguntar a N. se ela tinha mãe, sem levantar os olhos e sem sorrir seu sorriso envergonhado, ela respondeu não. 

Q. sempre fica nas carteiras do centro da sala, como uma pequena e arisca garça pescoçuda, ela fica atenta a tudo que ocorre na classe. 

Quando o professor explica a matéria, Q. fica concentrada no que ele fala, seus olhos redondos e miudinhos não piscam, terminada a explicação, ela volta a perscrutar a sala. 

Q. é espigada, alta pra idade, mas sua cabeça é pequena como os olhos redondinhos, com os cabelos presos suas orelhas arredondadas destacam-se como radares. 

O que mais agrada Q. é escrever, ela copia tudo o que o professor risca na lousa até mesmo os rabiscos que ele rascunha. 

Q. gosta da escola, gosta de estudar, gosta de ler e gosta de escrever. O que ela não gosta é do medo que sente.   

R. é preta, rosto encovado com algumas manchas e magra por deficiência nutricional, Quando contrariada, ela grita e quando ela grita todos param, seu grito fere a alma. O cabelo dela é esticado a frio, cheio de pontas e mal repartido. 

R. sempre se posta na entrada da sala de aula aguardando a chegada dos professores e sempre tem algo a dizer. 

R. fala daquele jeito genuíno e ingênuo que somente as pessoas genuínas sabem falar. Quando retornei dos vinte dias de greve, ela não esperou, correu ao meu encontro e inesperadamente enlaçou minha cintura com seus braços fininhos num abraço carinhoso e falou “puxa professor fiquei triste e com medo, pensei que o senhor não voltava mais”. 

Semana passada R. disse que ia embora, perguntei pra onde, ela respondeu que ia morar na Bahia com o pai, perguntei por sua mãe, ela disse que a mãe preferiu ficar com o macho dela e eu ri de sua resposta ingênua.  

Essa semana R. não apareceu, quando avistei vazia a porta da entrada da sala de aula, fiquei triste e com medo.


Nota: esse texto foi inspirado em meus alunos do 6º Ano da E.E. Magali Alonso, a quem agradeço imensamente por terem me ensinado muita coisa.


 
 
 

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