Isolamento
- Peixessonhador

- 15 de ago. de 2024
- 2 min de leitura
Nestes tempos pandêmicos meu costume de dormir e acordar cedo chegou ao limite. Ainda claro me recolho, leio algumas páginas dos livros da cabeceira e, com a vista cansada, apago a luz para forçar o sono, após rolar pra lá e pra cá, durmo. Já não sonho, ou pelo menos não lembro mais dos sonhos, meu sono é um quarto escuro. As três e tantas, não consigo mais, os olhos não querem mais forçar o sono, os pensamentos gritam e não me deixam dormir, desisto e me levanto.
Mecanicamente, abro a porta e saio para a pequena varanda. Depois de me esquivar das rasantes dos morcegos que visitam o bebedouro com água e açúcar que sempre completo atendendo seus reclamos, confirmo que o mundo não acabou.
As três e tantas da madrugada, a luz amarelada que se espalha pela rua arborizada e vazia passa uma dupla impressão, paz e solidão. A paz do silêncio próximo e a solidão dos ruídos distantes, como o troar potente da sirene dos cargueiros deixando o porto, o claque-claque e os silvos metálico das composições se arrastando no cais. Paz e solidão.
Com prazer, sinto sobre a pele dormida o ar friozinho da madrugada e driblando os morceguinhos que me veem como um intruso, aguardo por alguns minutos até a passagem do guarda noturno em sua pequena mobilete. Com um tótótó melancólico seguido a cada instante de uma buzininha de alarme ele embala o sono da vizinhança oferecendo uma falsa sensação de segurança.
Algo do meu corpo que funciona bem é meu intestino, um relógio, o banho matinal avisa todo o resto do início de um novo dia, ainda distante da claridade, mas um novo dia. Depois de descer o saco de lixo, preparo o café e faço uma pequena refeição assistindo os canais de notícias. Como ultimamente só tem notícia ruim, tenho trocado essa programação por séries que costumo acompanhar, não maratonar, um capítulo por dia apenas.
Em seguida venho para onde estou neste momento e passo a escrever. Nos dias de aula, preparo em PowerPoint a matéria, nos dias sem aulas, escrevo coisas como este texto. Escrever tem sido minha forma de romper o isolamento. Isolamento que por sinal eu sempre vivi, uma marca característica minha. Ocorre que, por ter passado a maior parte do tempo na rua ou pelo menos fora de casa, nunca tive tempo para refletir sobre o porquê. Até então, estar envolvido numa atividade qualquer sempre me permitiu não pensar na solidão.
Provavelmente, essa é a questão, Nestes tempos de pandemia, isolamento, home office, lockdown, o isolamento carrega em si o perigo de, num mundo tão compartilhado por redes sociais como esta que estou utilizando, percebermos o quão solitários e não solidários somos.



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